Fotografia X Desenho

Por Iriam Starling

Os livros didáticos das ciências biológicas são, talvez, os que mais se utilizam de imagens para maior clareza dos seus textos. Fotos e desenhos convivem lado a lado na mesma obra, cada um com seu valor e aplicabilidade. A fotografia, desde que sua patente foi anunciada em sete de janeiro de 1839 por Louis-Jacques Mandé Daguerre, na Academia de Ciências de Paris, causou impacto entre os cientistas de todo o mundo. Contudo, ela só começou a ser largamente usada quando o custo de seu processamento tornou-se mais acessível e as câmeras mais leves e portáteis. Ao contrário de muitas previsões, os ilustradores não despareceram e nem tornaram-se obsoletos, mas ganharam mais uma ferramenta para seu trabalho. Até então a cópia de uma imagem projetada era o recurso disponível aos ilustradores para elaboração de um desenho mais realista. Isso era possível através da câmara escura, amplamente usada desde o renascimento. Hoje, com os recursos da computação gráfica, as fotos podem ser trabalhadas de forma a se tornarem mais didáticas.

Na medicina agregaram-se ainda outros recursos de imagenologia que são usadas não só como meios diagnósticos, mas também como ilustração. Ao Rx, descoberto em 1895 pelo físico alemão Wilhelm Röntgen, foram acrescentadas as tomografias, cintilografias, entre outras. As imagens diagnósticas hoje são tão sofisticadas que podem ser elaboradas com animação em três dimensões.

Não podemos nos esquecer do microscópio, cuja invenção, atribuída aos holandeses Hans Janssen e Zacharias Janssen por volta de 1595 , revolucionou as ciências biológicas. Não se tem conhecimento de que Hans e seu filho, então fabricantes de óculos, tenham utilizado sua invenção com finalidades científicas. O aparelho só começou a evoluir ao final do século XVII com o interesse dos cientistas até chegar ao microscópio eletrônico, hoje. Imagens fotografadas através de microscópios também são utilizadas para ilustração de textos científicos e didáticos. Não obstante, tais imagens abriram um novo campo para os ilustradores, pois se elas são legíveis para cientistas, não o são para leigos e estudantes. Assim, coube aos ilustradores representar, através de desenhos esquemáticos, as descobertas feitas no campo da microscopia.

Atualmente não há sentido em se usar um desenho apenas para reproduzir uma boa foto, exatamente como ela nos parece. Nessa situação, no máximo um bom retoque em programas digitais é suficiente para uma excelente ilustração. Também não há sentido em usar uma foto ruim como parâmetro para uma ilustração científica, mas há muitas situações em que a fotografia não é adequada ou até mesmo possível de ser feita. Por isso os desenhos ainda são necessários. Em algumas situações, a ilustração científica é até mais vantajosa que a fotografia. Seja ele feito através de meios digitais ou à maneira clássica, no desenho é possível:

  • simplificar formas complexas, em especial a anatomia, tanto de animais, quanto de vegetais;
  • isolar elementos e detalhar suas características;
  • enfatizar aspectos considerados mais importantes;
  • reunir em uma única imagem, várias fotos, incluindo fotomicrografias, compondo o todo a partir de seus elementos;
  • eliminar estruturas ou aspectos que, de outra forma, chamariam mais a atenção do observador do que o elemento principal;
  • criar transparências onde elas não existem com intuito de ressaltar seu posicionamento em relação a outras estruturas;
  • reunir teorias e hipóteses, demonstrar o passo a passo de uma experiência ou mesmo de uma cirurgia de maneira simples e objetiva.

Ao fazer um desenho, o ilustrador deve ter em mente também o público alvo. Crianças necessitam de imagens mais coloridas e atrativas. Os adultos também têm facetas diversas: as ilustrações podem ser mais esquemáticas ou mais elaboradas conforme sejam mais especializados ou mais leigos, respectivamente, mas não há quem não se renda a uma obra primorosamente ilustrada.

Conclui-se que o desenho na ilustração científica, em diversas situações, cumpre melhor a função de tornar mais claro o texto, transformando-se mesmo em parte essencial de uma publicação didática ou científica.

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