Ilustração Científica no Brasil

INTRODUÇÃO
A ilustração científica é uma atividade secular, que acompanha o conhecimento do homem desde os primórdios de sua existência e reflete, além de sua capacidade de aprendizagem, a sua evolução, deixando preciosos registros da natureza. A diversidade temática da Ilustração científica é tão grande quanto a da própria ciência. A multiplicidade de técnicas disponível permite ao ilustrador a elaboração de imagens claras, objetivas e, ao mesmo tempo, cativantes. Na busca da imagem que melhor transmita a informação que se deseja, o ilustrador científico vai do hiper-realismo, passando pelo realismo até a simplificação das formas ou mesmo desconstrução da realidade.
Neste breve histórico, faz-se um passeio pela ilustração científica no Brasil ao longo do tempo, desde a sua chegada às Américas. Fatos como as grandes navegações, a invenção da prensa, as grandes expedições e a expansão das ciência no Brasil são pontos marcantes e fundamentais na evolução da ilustração científica brasileira.

ILUSTRAÇÃO NA AMÉRICA
Na transição do séc. XV para o XVI, as grandes viagens de descobertas que se realizaram contribuíram para a evolução da Ilustração Científica. Os navegadores do Infante D. Henrique desceram a costa africana, dobraram o equador e atingiram o sul da África. Contrariando a crença grega clássica de que os trópicos eram inatingíveis e inabitáveis, Vasco da Gama contornou o continente africano e descobriu o caminho marítimo da Europa à Índia. Colombo encontrou a América e Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, onde encontrou uma fauna e flora exuberantes que ainda hoje encanta o mundo.
Para descreverem tudo que viram, os exploradores e os naturalistas encontraram na imprensa e nas técnicas da perspectiva um meio adequado à sua difusão pelo mundo europeu. Desde cedo se reconheceu a importância das ilustrações no livro impresso e da necessidade de se desenhar com base em fontes credíveis de informação, onde os Portugueses foram pioneiros. Desde 1500 aconteceram atividades científicas no Brasil: viagens exploratórias, com registros sobre a flora e a fauna locais; estudos sobre a cultura e as línguas indígenas; realização de observações astronômicas por jesuítas aqui sediados, entre outras. Os cientistas destes tempos trabalhavam de uma forma muito diferente do que entendemos hoje por ciência. Primeiro não eram “profissionais da ciência” e se dividiam em múltiplas atividades, entre elas, a ilustração. Há que se entender que o desenvolvimento da ilustração científica acompanhou o da pesquisa científica.

A xilogravura veio para a América trazida pela imprensa – ao contrário do que ocorrera na Europa. Os espanhóis, preocupados em colonizar os povos americanos e transmitir-lhes sua fé, apressaram-se em mandar, já no ano de 1539, um impressor para a cidade do México, época em que grandes centros europeus ainda não contavam com esta prova de progresso. Toda a América espanhola beneficiou-se desta abertura da metrópole.
Nos séculos seguintes aprimoraram-se as observações, refinaram-se as técnicas e metodologias e desenvolveram-se museus, jardins botânicos e centros de investigação, onde se construíram coleções valiosas acessíveis a qualquer ilustrador, que no seu todo moldaram a ilustração de história natural tornando-a mais rigorosa e isenta.

ILUSTRAÇÃO NO BRASIL
A Imprensa
No Brasil, a imprensa só começou a se desenvolver a partir de 1808 com a vinda da Família Real e sua corte. Até então vigorava uma proibição expressa de Portugal com relação à instalação de oficinas de impressão no Brasil, sob a alegação de que a metrópole teria condições de suprir a escassa demanda da colônia. Na verdade, Portugal temia os efeitos políticos que essa inovação técnica poderia provocar. Apesar disso, há registros de que houve algumas tentativas de introdução da imprensa no Brasil.
Primeiro no Recife, sob a dominação holandesa, e depois no Rio de Janeiro, pelas mãos de um lisboeta que chegou a imprimir três ou quatro folhetos e que, em seguida, teve seqüestrados todos os seus materiais e impressões.

Os gravadores que vieram com a Família Real faziam seus trabalhos em metal e, apesar de conhecerem a técnica da xilogravura, não usavam a madeira como suporte, pois essa técnica havia caído em desuso na Europa por essa época. Sabe-se, no entanto, de que alguns destes gravadores realizaram pequenos trabalhos, como a gravação, em madeira, das armas reais.
A gravura foi introduzida no Brasil com a instalação da Imprensa Régia em 1810, do Arquivo Militar e do Collegio das Fábricas no Rio de Janeiro. Este abarcava a fábrica de cartas de jogar e a Estamparia de Chitas, utilizando-se de gravuras em madeira. A princípio, essas matrizes eram importadas, mas começaram a aparecer pequenas ilustrações e vinhetas nos jornais, bem como anúncios de pessoas oferecendo seus serviços como “abridor de chapas em fundo ou em relevo em cobre, pedra, madeira e metal, gravando todas as qualidades de estampas…” A xilogravura era utilizada principalmente para ilustração de papéis comerciais, publicidade, pequenos anúncios jornalísticos e vinhetas para jornais e livros.
Apenas 11 anos mais tarde, passou a ser permitida a entrada franca de livros. Com isso, textos e manuais ligados à educação científica, mesmo que em número reduzido, começaram a ser difundidos pelo país. Em 1813 já havia publicações de artigos relacionados à ciência. São exemplos o jornal O Patriota, Nictheroy (1836) e O Guanabara (1850).

As expedições
No início do século XIX, vários naturalistas europeus sonhavam em conhecer a floresta tropical na distante e perigosa terra. Assim, o viajante Henry Bates (1825 – 1892), filho de comerciante, ao lado do amigo Alfred Wallace, atravessou o atlântico em direção ao Brasil entre 1848 – 1859. Bates permaneceu 11 anos na amazônia, listou 14800 espécies desconhecidas para a época, fez um retrato histórico bastante fidedigno da Belém do Pará que conheceu e deixou registros etnográficos sobre os índios munducuru e os ticuna. Esse trabalho resultou em uma das ilustrações mais belas do livro The Naturalist on the river amazon, escrito por Bates quatro anos antes de seu retorno à Inglaterra

Karl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) e Johann Baptist von Spix (1781-1826), também fizeram observações naturalísticas no Brasil, reconhecendo sua fauna, flora e produtos mineralógicos. Iniciaram seu trabalho pelo Rio de Janeiro e arredores, em uma viagem que durou cerca de três anos, exploraram diversas localidades do território brasileiro, incluindo São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas. O material por eles recolhido permitiu elaborar diversas obras de cunho naturalista sobre o Brasil. É já bem conhecida a obra Viagem pelo Brasil, que relata suas “aventuras” em território brasileiro. Entre outros estrangeiros que aqui estiveram, integravam a comitiva da grã-duquesa austríaca Leopoldina, que chegou ao Brasil em 1817 para casar-se com Dom Pedro I.
No entanto, os territórios explorados pelos dois viajantes já haviam sido escrutinados por viajantes naturalistas brasileiros. Durante a segunda metade do século XVIII, houve um grande e sistematizado esforço por parte do Estado português, que, aliado às várias instituições científicas como a Academia Real das Ciências de Lisboa e o Museu de Ajuda, pretendia inventariar as riquezas de seu império em especial o Brasil por meio da ciência (Silva, 2002). Para isso foram comissionados diversos naturalistas nascidos no Brasil e, em sua maioria, graduados pela Universidade de Coimbra. Nesse contexto, muitos deles se embrenharam pelo território brasileiro para fazer levantamentos de suas potencialidades econômicas.

As “viagens filosóficas” tinham também o objetivo de abastecer instituições de investigação portuguesas com coleções de História Natural. O grande esforço português na averiguação e sistematização dos produtos naturais das 7colônias portuguesas nesse período foi coordenado por Domingos Vandelli (1730-1815), primeiro professor de Química e História Natural da Universidade de Coimbra após as reformas pombalinas de 1772, que introduziram as “ciências modernas” naquela Universidade.
Entre todas as “viagens filosóficas” em território brasileiro, ganhou notoriedade a expedição liderada por Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1814), naturalista brasileiro formado na Universidade de Coimbra que explorou a região amazônica de 1785 a 1792. Mas no mesmo período houve muitas outras, como por exemplo as de José Vieira Couto (1752-1827), em Minas Gerais, também formado em Coimbra e contratado pela coroa portuguesa para levantamento de recursos minerais, visando à ampliação e à diversificação da produção colonial; as de José de Sá Bittencourt Accioli (1755-1828), na Bahia; as de José Manuel de Sequeira, em Goiás; as de Manuel de Arruda Câmara (1752- 1811), em Pernambuco, Piauí, Paraíba e Ceará; as de João Manso Pereira (1750?-1820), em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro e as de João da Silva Feijó (1760-1824), no Ceará, entre outras (Silva, 2004).
Embora tenham realizado um trabalho muito importante para o período, esses naturalistas viajantes foram preteridos pela historiografia brasileira, que sempre deu mais atenção aos viajantes estrangeiros. Trabalhos historiográficos recentes têm procurado resgatar essas trajetórias quase desconhecidas, para mostrar evidências de atividades científicas no Brasil na transição do século XVIII para o XIX.

No final do período colonial, durante a permanência da corte portuguesa no Brasil, diversas instalações de instituições científicas tiveram início. A criação dessas instituições, apesar de seguir os preceitos iluministas, foram feitas por questões de ordem política, pois a Coroa necessitava iniciar a formação de quadros para o governo local, uma vez que a Colônia tornou-se sede do império português.
Foram, então, criados: em 1808, o Colégio Médico da Bahia (a partir de 1832, Faculdade de Medicina da Bahia); no mesmo ano, a Escola Médica do Rio de Janeiro (também Faculdade de Medicina, em 1832); ainda em 1808, o Horto, depois Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Em 1810, a Academia Militar do Rio de Janeiro, que durante o século XIX daria origem, em 1855, à Escola Central e, em 1874, à Escola Politécnica. Por fim, em 1818, o Museu Real, depois Museu Nacional de História Natural.
Na área de saúde pública, desça-se o Instituto Oswaldo Cruz que, cujos cientistas publicam, desde 1901, uma quantidade considerável de trabalhos científicos contendo ilustrações. Ao final da primeira década no século XX, passam a publicar um periódico científico com o intuito de divulgar a produção da instituição, as Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Foi, então, contratado ilustradores com finalidade específica de registra os achados dos cientistas sobre história natural e medicina tropical. Nesta época é descoberta a doença de Chagas e sua forma de transmissão. Os estudos sobre o inseto vetor, pouco conhecido, foram publicados com cuidadosas ilustrações.

A PROFISSÃO DE ILUSTRADOR
Escolas de graduação no ensino superior em ilustração científica com suas especializações, principalmente a ilustração médica, bem como a pós-graduação, foram difundidas nos Estados Unidos e na Europa em meados do século XX. O ilustrador passou a ser profissional valorizado e disputado por escolas e hospitais de renome internacional. Hoje as publicações científicas e didáticas competem entre si não só pelo conteúdo das informações mas também pela qualidade de suas ilustrações e design gráfico.
No Brasil, a profissão de ilustrador ainda não é reconhecida. Muitas publicações didáticas e científicas apresentam ilustrações de má qualidade, feitas por amadores, que, ao invés de enriquecerem o texto e facilitar sua compreensão, confundem ainda mais o leitor.
Inúmeros ilustradores do país vêm se organizando no intuito de mudar esse panorama, mas a maioria ainda não acordou para a real necessidade da regulamentação da profissão.
Iriam Gomes Starling.

BIBLIOGRAFIA

1. Geraque, Eduardo Henry Bates redescoberto. 21/03/2005. Agência FAPESP – Biologia, zoologia, sociologia, história e antropologia. http://www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?id=3452. 14/04/2007
2. Dantes, Maria Amélia Mascarenhas. As ciências na História Brasileira. 2007 Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência Universidade Estadual de Campinas.
3. Silva, Clarete Paranhos da; Uma contribuição para a divulgação da memória científica do Brasil. Revista Técnica IPEP, São Paulo, SP, v. 6, n. 2,p. 75-84, ago./dez. 2006
4. Barata, Carlos Eduardo de Almeida; História das Cidades. Acessado em 06/04/2008. http://www.hcgallery.com.br/cidade6.htm.
5. Nas frestas entre a ciência e a arte: uma série de ilustrações de barbeiros do Instituto Oswaldo Cruz. Hist. cienc. saude-Manguinhos vol.11 no.2 Rio de Janeiro May/Aug. 2004.
6. Massarani, Luisa. A divulgação científica no Rio de Janeiro: Algumas reflexões sobre a década de 20. Rio de Janeiro: UFRJ/ECO. 127 p.

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